51 anos em cinco minutos
"51 anos em cinco minutos"
Acordei cedo, como sempre, no dia 15 de janeiro de 2025, mas, diferente da maioria dos dias, fiquei na cama até a hora do almoço. A cama e a casa que amo tanto foram maravilhosas companhias para a manhã do meu aniversário, junto com as muitas mensagens, que respondi até o momento de dormir.
No café da manhã, comi acerolas que ganhei, no dia anterior, da minha irmã. Também bebi um capuccino de chocolate, presente das freiras franciscanas de Boituva, que conheci no final de 2024 e com quem colaborei numa exposição de presépios. Almocei sozinha: fiz três tomates e uma cebola assados com azeite de oliva e sal. Tomei um banho um pouco demorado. Me vesti com Evolução Eco: vestido de renda vinho, antigo, bem rodado na altura dos joelhos e com um babado generoso do mesmo tecido na parte superior, que pode ser usado como gola redonda ou, mais ousada, ampliando as laterais nos ombros. O largo babado cobrindo o busto, todo arredondado e com belo caimento, nos ombros e no geral, me fez sentir confortável: esse vestido me acompanhou durante o dia tão especial!
Passei visitar os meus amigos Vanda e Vicente. Com eles, dividi um minipavê que fiz com bolachas champanhe embebidas em geleia de figo com nozes, creme de leite e licor de café com doce de leite. Antes de viajar, tingi umas roupas de amarelo, uma das principais cores do sol. Tingir e pintar: duas paixões! Neste 2025 espero fazer muitos mandalas inspirados na leitura de "O livro vermelho" de C.G. Jung.
Meu amigo de adolescência Emerson Gaiotto, o monge Mateus, me aguardava na casa do padre Dirceu Sudário de Freitas, ao lado da Igreja Matriz de Cerquilho, quem gentilmente nos convidou para um cafezinho, o que caiu muito bem antes de pegar a estrada rumo a São Paulo. Ao colocar no aplicativo a rota, percebi que era dia de rodízio exatamente da placa do meu carro. Propus para o Emerson passar em Santana de Parnaíba, que eu havia conhecido uma semana antes. Que centro histórico tão lindo! E que jantar leve e num ambiente de jardim interno de uma casa antiga, loja de artesanatos bem coloridos de Minas Gerais. Comemos cuscuz mineiro com queijo da Serra da Canastra, manteiga francesa e duas jarrinhas de sucos de tangerina e laranja. No caminho, passamos na Quinta do Marquês para comer pastel de Belém com café expresso, também para apreciar a vista e a música ambiente do restaurante - um fado na nossa chegada -, além dos belíssimos cristais coloridos em forma de taças, jarras, fruteiras, objetos de decoração à venda, junto com uma infinidade de vinhos, pães e produtos portugueses. Nesta viagem vimos, ainda de dia, as belas paisagens da Ecoestrada do Suru, a que nos conduziu à cidade charmosa que nos convida sempre a voltar: Santana de Parnaíba.
No Mosteiro de São Bento, estacionei e fiz uma foto panorâmica da lateral do prédio antigo, com suas luzes noturnas! Chegamos praticamente no mesmo horário que nasci: 21h45. Enfim, completei de verdade os 51 anos, eu que nasci numa noite do verão de 1974. Um presente de Deus! Jamais imaginei passar a noite do meu aniversário hospedada na ala feminina de um mosteiro! No passado, em 2002, também não imaginaria viver quatro meses num ex Priorado, no maior dos quartos, com piso de madeira clara e três janelas que davam para um enorme jardim com macieiras e pereiras. Isso aconteceu quando ganhei a bolsa para jovens escritores UNESCO-Aschberg 2002-2003. Naquele momento, vivi num Priorado erguido no século XVII em frente à Igreja Nossa Senhora da Assunção do século XII, classificada como monumento histórico. Este local religioso passou a ser, no início do século XX, uma residência privada e, em seguida, por 20 anos, uma residência artística, de 1998 a 2018: o Centre d'Art Marnay Art Center, CAMAC, em Marnay-sur-Seine, França, a uma hora de Paris. O rio Sena corta a cidade, passando atrás do antigo Priorado e da Igreja, que consegui ver por dentro uma única vez. Também nunca havia imaginado me hospedar no imponente Monastério do deserto da Candelária, quando fui visitar a Villa de Leyva, numa viagem de quinze dias na Colômbia, cujo principal destino era Bogotá, cidade deslumbrante com sua vida cultural intensa. Essa lembrança da hospedagem me voltou à mente durante uma conversa virtual com o amigo-escritor Jairo Fará.
No dia 15 fui recebida no Mosteiro de São Bento com um chocolate sobre o travesseiro da cama arrumada. De sete quartos, todos estavam vazios e fui recepcionada no de número dois. Fiz fotos lindas das ruas e prédios pelas janelas, assim como dos ambientes internos com suas luzes amarelas de noite e avermelhada de dia, por causa da cor das cortinas. Me senti em casa! Na parte interior da porta do quarto, informações úteis e horários das missas - um "Guia do Hóspede" que se inicia com a seguinte frase: "'Todos os hóspedes que se apresentam no mosteiro sejam recebidos como se fosse Cristo em pessoa' - Regra de Nosso Pai São Bento". Terminei a noite do dia 15 no mosteiro, sozinha, tirando três fotos do meu vestido vinho rodado antes de tomar banho e dormir. Uma foto em especial me agradou muito pelo contraste da cor do vestido com a da madeira clara do piso da sala onde eu estava hospedada.
No dia 16, ganhei um delicioso café da manhã na cozinha da ala feminina: frutas, pães e bolos que depois comprei na padaria do Mosteiro, queijo branco e café. Emerson e eu andamos por lugares belos do Centro de São Paulo, fomos no Sebo Messias, Sé, Centro Cultural Caixa, Centro Cultural Banco do Brasil, onde conheci a obra do escultor Flávio Cerqueira, que me marcou profundamente. Almoçamos no refeitório do Colégio de São Bento, no mesmo horário dos funcionários. Caminhamos muito, a tarde toda também, fomos a livrarias, praças. Numa livraria, conhecemos Günter, um alemão que viveu três anos no Brasil. Foi um encontro enriquecedor, regado à muita risada, algumas "selfies" a pedido do nosso novo amigo estrangeiro e à cajuína do Ceará bem gelada, com gelos adicionados em copos semelhantes aos de whisky. Reservei um quarto de hotel, perto de uma faculdade particular para dormir no dia 16. Era quinta-feira. Cheguei no destino, depois de um trajeto de quinze minutos debaixo de uma chuva torrencial. Passei em frente da Faculdade de Direito do Largo São Francisco-USP, do Teatro Oficina e pela famosa rua Maria Antônia. Cheguei e escrevi para o Emerson: "vai um samba aí?" Consegui dormir vencida pelo cansaço e pelo tarja preta, apesar do barulho ensurdecedor dos bares.
Logo cedo, deixei o carro no estacionamento do Mosteiro de São Bento. Emerson e eu andamos o dia todo. Passamos visitar meus grandes amigos Jorge e Wal, no Largo do Arouche. Que delícia conversar tanto! Que gostosura conhecer a mãe do Wal, tão bem com seus 85 anos! Cruzamos a divina Estação da Luz, prédio que é uma obra de arte, com seus trens, uma multidão de pessoas tão diferentes convivendo em um mesmo espaço! Encontramos ali uma exposição de fotos e outra de literatura de cordel, e epecialmente uma cabine do Museu da Pessoa: museu virtual e colaborativo de historias de vida. Aproveitei para gravar uma história, minha vida em dois minutos intitulada "Meu amor pelos trens, abelhas e pela natureza". Marquei um encontro com a minha mãe às 21 horas, pois ela estava em São Paulo e voltaríamos juntas a Cerquilho. Emerson me acompanhou o dia todo, caminhando o tempo todo, como no dia anterior. Jantamos no SESC 24 de Maio. Nos despedimos no Mosteiro de São Bento, como me despedi em 24 horas dos meus 50 anos.
Antes e depois do aniversário, comemorei com várias amigas. No sábado, dia 18, participei da festa de aniversário da Mi, minha prima, amiga e vizinha que nasceu também em 15 de janeiro, três anos após o meu nascimento. Na festa, celebramos com bolo, brigadeiro e panetone de doce de leite Lindth. Dos amigos internacionais, reitero o meu amor pela amiga-irmã-tradutora Espérance Aniesa e, dos interestaduais, destaco o meu amigo e multiartista Jiddu Saldanha, o Jidduks, designer de e-books. Aproveito para anunciar que, nesse mês de janeiro, sairá ao público meu segundo e-book gratuito, editado por ele: "jardins: poemas e fotografias" de Cristiane Grando.
Não posso deixar de mencionar que na crônica anterior à esta, que narrei meu principal presente de 50 anos - minha primeira viagem num navio - esqueci de contar que no show da Marisa Monte, Ney Matogrosso, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto, em 13 de dezembro de 2024, fui vestida de Evolução Eco. Foi a estreia de um vestido verde, rodado logo abaixo dos joelhos, em vários tons e com um mandala tingido acima do umbigo. Foi a estreia de entrar num navio de 20 andares, praticamente uma cidade, com quase quatro mil passageiros, mas cuja capacidade é cinco mil (sem contar a tripulação e quem ali trabalha nas mais variadas funções). Para os 51 anos, vou me presentear com uma viagem em balão, provavelmente em Boituva, cidade vizinha de Cerquilho. Mas, quem sabe um dia será na Capadócia!
Percebo que todos os caminhos me levam ao Cristo e vou vestida sempre de Evolução Eco, roupas fabricadas artesanalmente no bairro rural de Cerquilho chamado Taquaral, onde vivo e onde meus pais nasceram e cresceram. Com 51 anos, sigo caminhando com Cristo e ao encontro da luz!
Cristiane Grando
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